Naquele dia o que mais me incomodava em ti era o cheiro... acre...forte... que tanto me repelia como atraía...Demorei a identificá-lo. Semelhante talvez ao das couves do cozido à portuguesa, pensei. Só depois recordei a visita à Igreja de São Francisco, Turim. Onde na verdade está o Santo Sudário. O cheiro era semelhante ao acre e envelhecido das igrejas, a tua imagem... semelhante àquela, à Dele.
Demorei a perceber. Só passados quatro dias, a arrumar caixotes antigos vindos de Angola lembrei o teu odor naquele dia...
Chamo-lhe essência do desejo porque quase insuportável, atractiva.
Olhava as tuas expressões patuscas, infantis por vezes... era desejo? Queria tocar-te... Acariciar-te... Lutei até ao fim resistindo a tocar naquela madeixa, aquele caracol que te pendia sobre o rosto...
Como eu, lutavas pondo e tirando os óculos, ofuscada... talvez. Queria ver-te, observar e no entanto obrigada pelo rigor profissional a tirar notas... Lutei três dias até ceder.
Cedi e mesmo assim os meus olhos resistiam. Encontrei-te finalmente. O tocar inocente e esporádico de dedos, o aproximar lado a lado...
Perdi-me no tempo, nos ponteiros do relógio, nas questões e jogos de palavras. No teu encanto ou no Dele?
Cedi por necessidade, por ímpeto e capricho. No regrets. Resta-me tranquilamente esperar o sinal...